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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O SINDICATO COMO RELIGIÃO



Parece-me que há certa semelhança entre o modo de agir dos sindicatos e alguns credos religiosos. Em que consiste essa semelhança? Em quais aspectos os dois se aproximam?
As religiões cristãs têm como pressuposto básico a existência do diabo. Esse ser, por vezes cognominado de "tinhoso", é o responsável por tudo que acontece de mal com as pessoas. Os adeptos de algumas dessas religiões não são responsáveis por nada ou quase nada do que fazem ou do que enfrentam. Nesses cultos, os conflitos familiares não são resultados de falta de respeito, não resultam da falta de cortesia ou de dedicação, nunca é produto do alcoolismo, não resulta do descuido no trato com o outro, nem é falta de recursos financeiros ou má administração do dinheiro, é sempre a presença do "tinhoso" no ninho doméstico.
Nessa perspectiva a baixa renda não tem reação com a falta de preparo para o mercado de trabalho, simplesmente é culpa do diabo que não deixa o sujeito ganhar mais. Ser despedido do emprego nada tem com a falta de preparo, com irresponsabilidade ou falta de compromisso, é sempre o inimigo invisível, o dito Satã que atravanca o processo.
Dessa forma os adeptos de tais religiões nunca são estimulados a melhorar como pessoa, porque o problema nunca está neles. Não há razão para a instituição promover cursos ou reuniões de preparo porque todo problema está fora do sujeito e fora do controle.
Nos sindicatos acontece algo semelhante. Para os sindicalistas o problema da educação é o sistema, o governo, o aluno e a família. Nada do que acontece tem a ver com a formação do professor, com o seu envolvimento pessoal com a educação, com o assumir-se professor.
 O professor assume que o problema da educação é da família e que, se esta falha, nada lhe resta fazer como profissional. Não se preocupa sobre o que dizer aos pais que desesperadamente buscam ouvir uma palavra sua. Assume que ser professor é simplesmente transmitir informações que já estão nos livros e, por vezes, nem mesmo as incrementam ou buscam dialogar com os alunos.
Nenhum professor apresenta um projeto sobre como reorientar as atividades da escola visando diminuir a violência interna e melhorar a participação dos alunos. Seu pensamento está sempre em inibir ações dos alunos e não em reorientar e promover ações. Mas, na perspectiva dos sindicatos, isso não é papel dele. Pelo menos não se vê essa discussão sendo posta em pauta.
Esquecem que salário, embora seja importante e necessário, não é suficiente para constituir o sujeito como profissional comprometido. Ele não garante que o professor fará leituras sobre como orientar pais e bem se relacionar em ambiente de trabalho.
Não há discussão sobre a formação inicial do professor porque é ela que constitui a sua identidade profissional. É durante a formação inicial que ele deve ser orientado sobre leituras de relacionamentos, gestão escolar democrática, elaboração de projetos, diálogos na educação, promoção da autonomia, potenciais da educação escolar, potenciais educativos e usos da tecnologia.
Onde entra o sindicado nessa discussão de formação inicial?  Onde o sindicato põe em pauta o preparo do professor para coordenar uma reunião de pais? Qual a contribuição do sindicato na formação do professor para participar dos Conselhos Municipais onde pode opinar sobre a gestão da sua comunidade?
Antonio Sales
Campo Grande, 13 de janeiro de 2014.

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