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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

CURADORES FERIDOS



Curador neste texto tem o sentido de uma pessoa que, por escolha ou dever profissional, se ocupa de cuidar das pessoas, de aliviar o sofrimento humano. Esse sofrimento não se limita ao âmbito da dor física. Pensamos em dor como sendo qualquer sofrimento consciente ou inconsciente que esteja
acometendo uma pessoa. Pode ser o analfabetismo, pode ser a ignorância, a falta de esperança, o desinteresse ou a baixa autoestima.
Curar pode ser o trabalho de conscientizar as pessoas que são vítimas do descaso do poder público. O descaso do poder público é grave neste país. Prioriza-se obras em detrimento do atendimento nas áreas sociais. As equipes de assistência social são reduzidas, o professor é sobrecarregado com uma carga horária excessiva. As filas de espera no serviço de saúde estão longe de acabar.
Quando o piso nacional do magistério foi estipulado por lei federal houve governadores que recorreram judicialmente para não aplicar. Quando os soldados da FEB chegaram ao Brasil, após terem lutado na Itália, receberam a noticia de que a Força Expedicionária tinha sido extinta e eles estavam abandonados à própria sorte, para enfrentarem os traumas do pós-guerra sozinhos (COSTA, 2012).
Muitos governantes desse país são como um “pitbull” mal treinado porque atacam ou abandonam os que deveriam defender. Essas atitudes deixam-nos a impressão de que o Brasil é um país que não protege os seus filhos. Essa impressão gera pobreza, desestímulo, exploração, violência, abandono, baixa autoestima.
Abandono gera abandono, violência gera violência, exploração produz explorados e exploradores. O descaso do poder público gera falta de patriotismo.
Tratar esses problemas, responsabilizar-se por educar um povo sem patriotismo, crianças vítimas de descaso, desprotegidas, etc., coloca o professor na categoria de curador. Um curador frequentemente ferido.
Pensemos um pouco na atividade de curar.
Tenho pensado que quando alguém quer ajudar pessoas medíocres a saírem da sua mediocridade não pode viver muito tempo entre elas. O contato prolongado com a mediocridade é contagiante. Quem vai trabalhar com pessoas pessimistas, rústicas, enrijecidas, deve ter tempo para permanecer longe delas e se reabastecer de outras visões mais animadoras sobre a vida. Se alguém quer ajudar quem está "afogando" deve ter apoio para os próprios pés e não pode se deixar enlaçar por ele.
Tenho visto professores que vão trabalhar em escolas de comunidades carentes, ente pessoas sem esperança, pouco  dispostas a se deixarem influenciar, e depois de algum tempo também se tornam intratáveis, grosseiros, pessimistas,  tímidos e com um linguajar pouco recomendável.
Aqueles profissionais que atuam em duas comunidades distintas embora uma seja pouco produtiva se a outra responde melhor aos estímulos intelectuais conseguem se manter mais tempo saudáveis, entusiastas e abertos à aprendizagem.
Quem quer ajudar alguma comunidade carente deve residir entre pessoas não carentes para realimentar  diariamente as suas expectativas, reconstruir a cada dia a sua esperança, ter um motivo para sorrir e ser feliz.
O professor precisa de tempo para ler mais, participar de outras atividades sociais, participar de conselhos diversos, discutir algo mais do que sala de aula; conversar sobre assuntos que não seja nota, aprovação, reprovação, Prova Brasil, etc., se quiser permanecer mais tempo saudável.
Em outubro de 2011 visitei João Pessoa. Minha filha cursava o seu pós-doutoramento em  Educação Popular de Saúde na  UFPB  sob o orientação de uma autoridade nacional no assunto.
O orientador, apesar do status que desfrutava,  era homem simples. Sua visão clara do que fazia  não o deixava se iludir pela euforia de uma possível  mudança rápida e nem se desiludir pela dificuldade de mudança.
Certo dia, enquanto almoçávamos, ele se referiu com muito pesar a um jovem padre que havia posto fim à própria vida naqueles dias. Era seu amigo e um tempo antes tinha trabalhado em Joao Pessoa, na comunidade em que o médico desenvolvia o seu projeto. Jovem, dinâmico e engajado nas causas sociais o padre fora-lhe um braço forte.
Agora, pouco mais de um ano, dada à sua prestatividade,  juventude e entusiasmo ele fora transferido para o interior do estado e atuava sozinho junto a uma comunidade carente.
Vinha desenvolvendo um bom trabalho, mas naqueles dias, cerca de uma semana, pusera fim à vida, não sem antes passar por um atendimento psiquiátrico.
O que deixara a todos perplexos era o fato de que havia  fortes indícios de que não fora  por conflitos espirituais uma vez que ingerira o líquido mortal abraçado a um Rosário. De igual modo quando atuou em João Pessoa dera mostras de ser  entusiasta na  luta em favor dos menos favorecidos e satisfeito com a vocação sacerdotal.
Qual a possível causa da sua depressão? Por que se desiludira tão rápido?
Surgiram as conjecturas e uma delas foi que ele teria se desiludido com a não resposta dos que quisera ajudar. Ao viver entre os que  não respondem teria se tornado, ele também,  "surdo" aos  apelos da esperança? Desistira  de viver porque estava entre os que não queriam mudar de vida? Saltara na “água” sem os equipamentos emocionais necessários para salvar os “náufragos” e, "não tendo encontrado pé", “naufragara” também?
A experiência do médico com as classes populares lhe dizia que quem cura também se fere, quem socorre também precisa de socorro, quem apoia também sente falta de apoio, quem consola também necessita ser consolado.
Naquela tarde fui presenteado com um livro organizado pelo Dr Eymard (*) e, no dia seguinte, ao lê-lo deparei-me  com um capítulo escrito por um psicólogo e cientista político também envolvido com as causas sociais.
Nesse capítulo onde teoriza e contextualiza o lidar com o sofrimento humano  ele destaca a função de “curador”, daquele que por escolha própria ou por dever profissional se ocupa de aliviar o sofrimento do outro. Ao concluir ele espera ter contribuído para que sejamos “melhores curadores ... mas sempre, sempre, irremediavelmente ... feridos!”.
O professor, via de regra, é um curador ferido. Começa cheio de entusiasmo, mas sobrecarregado de aulas e  a responsabilidade de produzir bons resultados  imediatos com uma clientela desestimulada e como colegas já feridos, ele também se fere. Começa com força, mas, por falta de apoio e de respostas,  enfraquece e “perde o fogo” tornando-se mais um com a síndrome de Burnout. O gestor do dinheiro público que se comporta como um “pitbull” mal treinado prefere não investir no professor enquanto ele tem forças e depois terá que suportar a sua retirada para tratamento de saúde.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com
Nova Andradina 20/10/2012
COSTA, Helton. Confissões do Front: soldados de Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial. Dourados, MS: Arandu, 2012.
(*)VASCONCELOS, Eymard Mourão (org.). A espiritualidade no trabalho em saúde. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 2011.

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