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domingo, 24 de março de 2013

A VIDA SELVAGEM DOS ALUNOS



O escritor português, Eça de Queiroz, tem um livro intitulado “as cidades e as serras”. Serra em Portugal é  sinônimo de fazenda, zona rural. O livro foi escrito no século XIX e o autor fala de “selvagem” que eu imagino se tratar de homem que vive na serra, homem do campo.
A certa altura do livro Eça de Queiroz põe na boca de um dos seus personagens uma fala interessante. Esse personagem diz sentir-se feliz por não ser “selvagem” porque os “selvagens” não têm as mesmas oportunidades que ele tem. O mundo dos “selvagens” é menor, é mais estreito, muito limitado, diz o personagem.
 O homem do campo não conhece o príncipe, não conhece os juízes, o  comissário ou delegado, logo, não tem defesa. Ele não conhece as regras do comércio então não sabe negociar, não sabe fazer um bom negócio.
Ele conclui que as condições de vida de um “selvagem” são inferiores às de quem vive na cidade e as suas perspectivas em nada se comparam com às deste último.
Imagino que a fala do personagem de Eça de Queiroz pode ser aplicada aos nossos aldeados e a muitos dos nossos camponeses ou assentados. Muitos desses últimos  passam alguns anos sem receber o financiamento prometido, sem poder corrigir o solo para produzir, sem poder construir a casa para abrigar a família, sem poder cercar a propriedade e comprar o “gadinho” tão sonhado.  Parece que todas as desvantagens da vida lhes pertencem.
Finalmente cansados de esperar vendem a propriedade para ressarcir pelo menos um pouco do tempo gasto em cuidar dela e então recebem o apelido de improdutivos, mal intencionados, de aproveitadores das “benesses” do governo.
Como educador eu colocaria, em lugar de homem do campo, o analfabeto, o homem sem escolaridade, o jovem que vive em bairros onde predominam a pobreza e o tráfico. As crianças que  vivem em ambiente violentos, filhos de pais ignorantes e depauperados moral e economicamente.
A limitação do seu mundo dificulta a escolha da profissão, dificulta frequentar a  escola com o mesmo interesse que teria se vivesse em outro ambiente, diminui as possibilidades dos seus descendentes começarem bem,  limita a possibilidade de um bom atendimento de saúde sem filas de espera, dificulta a implantação de um prótese em caso de alguma necessidade física especial, retarda o tratamento em caso de necessidade cognitiva ou relacional em algum filho, reduz a possibilidade de uma cirurgia eletiva para melhorar a estética. E, conheço casos em que se não saíssem de lá e não recebessem  a “força” de amigos teriam morrido à espera de uma cirurgia em hospitais que não tinham equipamentos para isso.
 O mundo dessas pessoas é muito limitado. Há pouca possibilidade de uma viagem cultural. O filho conhece o mar, um shopping, uma cachoeira pela televisão e ainda assim não é orientado na escolha dos programas.  Há pouca possibilidade de um encontro anual  de familiares que moram distantes, de ir a um cinema assistir a um bom filme, de experimentar um prato  diferente, de ter um álbum de fotos do filho.
Um pai mais abastado tem mais possibilidade de corrigir o filho sem usar a palmada porque ele pode punir o filho retirando alguma benesse (ir à piscina, andar de skate, etc.), ao pobre só restam duas opções:  tolher a liberdade ou a palmada. Ele não tem mais do que privar o filho. Se já faltam sonhos ao filho do que mais poderá privá-lo? Se ao próprio pai faltam perspectivas o que ele pode oferecer ao filho como alternativa?
Uma jovem criada nessas condições contrai núpcias com outro jovem também marcado pela falta de expectativa e o lar se torna carente de sonhos, além de carente de bens materiais minimamente necessários ao bem viver.
Muitas jovens, criadas nesses contextos, engravidam cedo para fugir de uma vida de tédio, para alimentar alguma esperança através do futuro do pequeno rebento.
Esperam que esses novo ser traga harmonia no lar, o afeto do namorado, a desejada atenção dos pais,  a inveja das amigas, um apoio do governo e prioridade nas filas de atendimento. Enfim, apostam todas as "cartas" do jogo da vida na vinda de um novo ser que nasce tão indefeso quanto os pais e os avós.
Não é à toa que tais jovens, quando grávidas,  quase se despem para expor a barriga fecundada em quase toda a sua extensão. Ali está o seu tão sonhado  futuro. Elas precisam mostrar que encontraram uma razão para viver.
Não discutiremos aqui as consequências dessa gravidez, nos deteremos apenas nessas poucas causas para situar o leitor nas limitações do mundo de muitos dos nossos jovens.
Vida selvagem, diria Eça  Queiroz, vida sem perspectivas, vida carente de afeto, carente de sonhos. Vida de quem admite que só o futuro distante lhe trará  o que deseja e se apoia em um ser frágil para sonhar.
Como professores, como podemos leva-los a sonhar? Como driblar toda essa gama de falta de oportunidades e apontar a direção da esperança para  esses jovens?  Quem não tem esperança não fala de esperança, e se fala tem um discurso vazio. Quem não está bem, não pode anunciar boas coisas.
A pergunta então é: como pode o professor sonhar para levar sonhos para a sala de aula?
 Nova Andradina, 24 de marco de 2013.
Antonio Sales                                                         profesales@hotmail.com

domingo, 10 de março de 2013

A CONTRADIÇÃO



Convidado para falar a um grupo de estudantes, que se preparavam para o magistério nos anos iniciais, foi-me solicitado que tratasse das perspectivas de se tratar a matemática escolar de  modo a torna-la atraente.
Atendendo ao solicitado discorri sobre formas alternativas de abordar as operações e como explorar a matemática enquanto se estuda a tabuada. Propus atividades que envolveram os presentes e no final uma voz se levantou no auditório e fez um desafio: porque você não vai às escolas nos ensinar isso?
Confesso que gostaria de ter essa oportunidade. Penso que a matemática nem sempre é bem ensinada nas escolas e nas universidades. Nas escolas esse trato não muito próprio nem sempre é culpa dos professores. Eles são mal orientados e encontram um ambiente não muito propício. Nas universidades, por sua vez, predomina uma visão tecnicista da educação centrada na memorização de regras e repetição de modelos que não privilegia o entendimento.
Em minha resposta à pessoa que me desafiou falei das dificuldades para ter acesso  às escolas com uma proposta diferente. Falei que quando atuava na educação fundamental executei muitas dessas práticas, mas agora que estou em outra instituição tenho dificuldade de acesso. A escola está centrada no cumprimento da ementa  e não no aprendizado do aluno. Não aceita arriscar uma nova proposta. Os professores querem trabalhar os “descritores” e não a matemática.
Quando atuei na educação básica consegui realizar alguns projetos pessoais de novas abordagens da matemática. Fiz  porque me portava como profissional que assume a sala de aula como tal e faz o que acredita que deve ser feito independente da ementa ou de qualquer pressão que pudesse vir.
Sempre fiz “jogo limpo”. Nas reuniões de pais defendia as minhas propostas, nas reuniões pedagógicas anunciava a minha didática, combinava com os alunos e pedia a colaboração deles para as tentativas que faria.
Muitos alunos percebiam logo que minha abordagem era diferente e manifestavam verbalmente que tinham percebido essa diferença.
Recentemente encontrei uma ex-aluna do ensino médio. Não a reconheci de imediato, mas ela se dirigiu a mim e após se apresentar disse: “sempre me lembro, e comento com colegas,  que foi com o senhor que em toda minha vida estudantil fizemos uma verdadeira exposição numa feira de ciências. Não era cópia, foi uma produção nossa. Precisava lhe dizer isso”.
Nem sempre encontrei facilidade, nem sempre tive alunos abertos a novas práticas mas sempre anunciei o que pretendia fazer, quais os objetivos e lutei por um trabalho diferenciado.
Na universidade também me aventuro. Já produzimos um teorema em sala de aula com acadêmicos de primeiro ano (http://www.uems.br/semana/2010/artigos/06.pdf).
Voltando ao desafio e à explicação que dei, confesso que encontro uma contradição na vida de professor. Ele é o profissional que não se assume profissional.  Ele é o intelectual que não estuda, não ousa e que se sente eterno dependente de alguém para lhe dizer o que fazer. É o profissional da repetição, da ausência de sentido no que faz e da falta de estímulo. É o profissional que, em muitas escolas, recebe receitas prontas e se sente confortável com essa situação.
Mas encontro outra contradição nas escolas: a excessiva preocupação com a ementa. Os coordenadores pedagógicos de muitas escolas atuam mais como técnicos fiscalizadores de ementas.
A seguinte pergunta é inevitável: em escolas com essa característica como se pode inovar quando se é obrigado a um agir programado?
Nessas escolas não se perguntam sobre os prejuízos de certo comportamento  para o aluno, mas sobre os prejuízos  para a ementa. Esquecem que mais importante do que cumprir ementas é aprender. Uma ementa anual pode ser cumprida em um mês, portanto cumprir ementa não é problema. O problema é o aluno aprender.
 No meu entender a ementa é um referencial.
Antonio Sales                               profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 9 de março de 2013.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O PODER PÚBLICO AUSENTE



Tenho feito algumas visitas a algumas cidades da  América do Sul  e tenho percebido que onde o Poder Público se faz presente há limpeza, segurança, o povo caminha tranquilo pelas ruas e levam a família para a praças. Por outro lado,  onde ele está ausente todos me recomendam que não vá para aquelas bandas e quando precisei ir tive que ir de taxi ouvindo o motorista falar mal do lugar e vendo sujeira, escassas pessoas nas praças e quando as vemos são jovens mal vestidos, com bonés atravessados na cabeças deixando transparecer a sua rebeldia. Quando vou de ônibus me recomendam  muito cuidado, que esconda a máquina fotográfica.
Em certa cidade fui até uma ponte. É um ponto turístico mas haviam me recomendado que tivesse o cuidado de não atravessá-la a pé. Fui até lá. Vi um policiamento ostensivo do lado que eu estava, mas quando me dirigi ao policial para perguntar  se havia o que visitar do outro lado (eu estava testando a recomendação recebida ) ele me disse: “é melhor não ir”. “Não recomendamos”, disse. “É muito perigoso”, continuou mostrando uma expressão facial de quem dizia lá só tem lixo.
Como a ponte não é muito grande olhei para a outra margem do rio e não me lembro de ter visto policiais do outro lado.
Encontrei ali mais uma evidência de que a minha hipótese não está incorreta. O poder público deixa uma comunidade se deteriorar  e depois avisa aos turistas de que ali não há nada (nem gente) que valha a pena  ser visitado. Avisa que ali é o “lixo” da cidade.
Aqui no Brasil, temos visto praças serem construídas e entregues à população sem a presença de um guarda para manter a ordem e zelar pela preservação do patrimônio público.  Com o tempo (não muito longo) o local começa ser abrigo de pessoas mal intencionadas e sem um projeto para a vida, que afugentam as famílias e danificam os bens. Quando chega nesse estágio então se diz que a população não cuida das praças. Ora, quem recebeu poder para fazer enfrentamentos da marginalidade é o Poder Público e não a população.  Quem vai se indispor com um marginal? Se isso acontecer, quem lhe dará proteção depois?
Penso que a população deve cuidar das praças no sentido de não danificar, de orientar os filhos a respeitar o local, as plantas e os bens. Não consigo imaginar a população sendo responsável por proteger a praça do ataque dos vândalos. Quem tem que enfrentar os vândalos é o Poder Público através de pessoas treinadas e credenciadas para isso.
É discurso comum e suponho que todos concordam que, numa família, a presença dos pais é fator de bem estar para os filhos. Pais presentes (uma presença de boa qualidade) dá segurança, acalma e ajuda nos estudos.
Quando o Poder Público está presente as filas ficam organizadas, as pessoas se respeitam mais, os investimentos duram mais tempo, há menos acidentes, menos gastos com reparos,  mais prazer em participar e até mais coragem para denunciar os erros.
O Rio de Janeiro mostrou isso claramente. Com a ausência do Poder  Público as favelas se tornaram antros de drogas e crimes. Com a  sua presença a esperança voltou a sorrir para os  habitantes.
Proteger um espaço público da ação dos vândalos é uma forma de educar a população e de atrair investimentos na cidade. Estar presente em uma comunidade é uma forma de investir nessa comunidade.
Por que não acontece? O que pensa o leitor?  

Antonio Sales          profeslaes@hotmail.com

Nova Andradina, 19 de fevereiro de 2013.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O BAFÔMETRO




A Lei Seca pretende inibir os acidentes gratuitos provocados por pessoas alcoolizadas no volante. Agora, segundo se comenta, houve o que chamam de endurecimento da Lei.
Nada mais justo do que tornar suficientemente severa uma lei que tenha a intenção de evitar abusos, inibir a irresponsabilidade e  proteger vidas.
Essa lei instituiu o uso bafômetro, mas outras leis tornam esse instrumento pouco útil porque elas preconizam que ninguém pode ser obrigado a produzir provas contra si mesmo. Para complicar ainda mais a Lei Seca, no meu entender, deu uma função distorcida ao uso do  bafômetro.
O seu uso foi instituído para verificar se a pessoa está alcoolizada e ela pode se recusar a bafejar no aparelho. Para diminuir esse constrangimento do policial que, cheio de vontade, quer pegar o bêbado irresponsável no flagrante foram instituídos recursos auxiliares, isto é, provas alternativas e subjetivas. Essas provas permitem aos advogados conseguir "convencer" os tribunais de que o seu cliente foi mal interpretado, mal observado, pré-julgado por pessoas que tinham ideias preconcebidas  contra ele, e por aí a fora. Argumentos, com certeza, não faltarão.
Tenho a impressão de que as leis do Brasil são mal formuladas para permitir que os transgressores escapem ilesos.  Os que têm poder (dinheiro, influência) e mau caráter conseguem se livrar delas facilmente. Não são leis feitas para todos.
Se não morrer o filho do juiz, do deputado ou do prefeito pela irresponsabilidade de um pobre, tudo bem. O filho do pobre morrer pela irresponsabilidade deles, pode.
É por isso que a lei seca instituiu que o bafômetro seja usado para verificar se a pessoa está alcoolizada. Dessa forma o senador, o governador, o presidente ou o vereador,  pode se negar a fazer o teste e pronto. Quem vai testemunhar contra ele? Quem é bobo de se colocar na mira desse pessoal?
Se quisessem que a lei funcionasse era só instituir que o bafômetro teria a função  de provar que a pessoa não esta alcoolizada. Pronto. Simples, não é?
A pessoa que se recusasse a fazer o teste estaria admitindo estar alcoolizada e não precisaria ninguém testemunhar contra ela. Pouparia o constrangimento do policial, livraria as pessoas do desconforto de ter que testemunhar contra a uma pessoa influente e não precisaria ficar recheando a Lei.
Resta saber se a lei tem a  redação atual por incompetência do redator ou por  má fé dos que a aprovaram com tal redação. Cabe ao leitor julgar.
Antonio Sales       profesales@hotmail.com

Nova Andradina, 15 de fevereiro de 2013