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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

COORDENADOR PEDAGÓGICO EM DESVIO DE FUNÇÃO




O Dicionário Gama Cury (Editora FTD) informa que desviar pode significar “alterar o destino ou a aplicação”. Estou pesando em desvio de função no magistério porque frequentemente discuto essa questões com um colega sobre os problemas vividos na escola onde a sua esposa é coordenadora de área.
Um coordenador de área aqui no estado do Mato Grosso do Sul é um professor que assume a função de assessorar, pedagogicamente, os professores de Matemática. Há também o coordenador de área para Língua Portuguesa.
Em outros estados fala-se em coordenador pedagógico que seria um generalista, mas também com a função de assessorar pedagogicamente o professor  proposto questões epistemológicas, pedagógicas ou didáticas para a sua reflexão.
Por que em Mato Grosso do Sul não se inclui também História, Geografia e Ciências nesse rol de disciplinas cujo professor recebe assessoria?  Simplesmente porque essas disciplinas não são avaliadas pela prova Brasil e, supostamente, não são importantes.
Interessante é ver os professores reclamando que os alunos só  estudam para a prova. Daria para ser diferente? Com quem eles aprendem ou adquirem essa cultura? Não está institucionalizado que só é importante o que “cai” na prova?
Você acredita que é possível mudar esse quadro? Se acredita,  por onde você supõe que devacomeçar a mudança? Howard Gardner, em seu livro “O verdadeiro, o belo e o bom”, afirma que o poder [gestor] é um fator que determina os destinos da educação. Será que ele tem razão? Nesse caso, quem educa: o professor ou o gestor? Por que será que ninguém (professor, aluno, pais, sindicato) insiste para que as disciplinas de História, Geografia e Ciências também sejam avaliadas? Concordam que estudá-las se constitui em uma cultura de segunda classe? Ninguém acredita no valor educativo delas? Por que estão na escola? Os professores dessas disciplinas têm prestígio perante a sociedade?
Quem se torna geógrafo, historiador, tradutor, intérprete, biólogo, artista é inútil para a sociedade?  O que ele tem para ensinar não merece ser aprendido? A única forma correta de raciocinar é a forma matemática?
É claro que numa prova internacional somente o conhecimento matemático pode ser avaliado. Só ele permite comparações de rendimento porque é o único universal. Cada país tem a sua história, a sua língua, a sua geografia, a sua segunda língua, a sua arte. Parece que a Biologia e a Física também são universais, mas ficam mais caracterizadas a partir do ensino médio. Os alunos têm mais contato com a Matemática, logo, faz sentido avaliar somente esse conhecimento. Mas em uma avaliação nacional por que  priorizar o conhecimento matemático? Qual o critério de escolha?
Não discuto a avaliação do conhecimento da língua pátria. Parece-me inquestionável. Por que não somente ele? Por que não todos?
O que isso tem a ver com desvio de função? Nada. Eu é que desviei o assunto, mas já estou voltando.
Desvio de função é outra coisa. O que falei até agora é desvio de foco. Quem desviou o foco?
Estava falando de coordenador de área. Ele está em desvio de função porque, segundo informações de colegas que exercem essa função, eles coordenam a disciplina (comportamento) da escola e não os professores da área. Vivem separando briga de alunos, cuidando de chamar pais para conversar, levando alunos ao médico, fazendo contato com o Conselho Tutelar, lavrando atas de ocorrências, etc. Enfim, fazendo de tudo, menos assessorar pedagogicamente o professor. Não está na hora de denunciar essa situação ao Ministério Público? A educação está mal conduzida. O dinheiro está mal empregado porque encarregar um professor de Matemática, por exemplo, para administrar conflitos é pouco produtivo. Esse profissional só aprende lidar com ideias matemáticas, quando aprende. A maioria, seguindo o padrão a universidade brasileira, só aprende seguir modelos. Há exceções, mas são poucas.
Mediar conflitos entre seres humanos não tem nada a ver com resolver uma equação ou efetuar uma operação matemática. Muito menos com seguir modelos prontos.
Quem deveria ser contratado para atuar nesse serviço disciplinar  da escola deveria ser:
a)                      O psicólogo educacional ou psicopedagogo para mediar conflitos entre alunos e orientar os alunos que já perderam o interesse em estudar;
b)                      O assistente social  para mediar a relação pais/escola, pais/filhos e escola/ outras instituições (Conselho Tutelar, Ministério Público).
A indisciplina (em algumas escolas violência) na escola não dá tréguas e se o professor for cuidar disso ele não dá aulas. Se o coordenador de área for cuidar disso as questões pedagógicas ficam prejudicadas. Se o diretor se encarregar da disciplina a escola fica sem ser administrada, as questões trabalhistas ficam a esperar, a manutenção da ordem e do prédio fica esquecida.
Portanto, desvio de função é um professor  que assume a coordenação pedagógica ficar cuidando da disciplina, das relações entre a escola e outras instituições  e ficar separando briga de aluno.
Será que um dia o Sindicato vai brigar por isso?
Antonio Sales  profesales@hotmail.com
Campo Grande, 07 de outubro de 2012.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MELHORAR A EDUCAÇÃO-II


      Escrevi no texto anterior que mais dinheiro para a educação não garante melhoria na qualidade da mesma. Creio ser oportuno fazer um pequeno reparo acrescentando que isso não acontece a curto e médio prazo. Talvez contribua a longo prazo porque o aumento no salário poderá motivar muitos jovens a ingressarem no magistério. Esse fator aumenta  a probabilidade de que jovens comprometidos com a educação e ousados nem suas iniciativas ingressem na carreira.
Também escrevi no texto anterior  que ninguém  (nenhum professor) pergunta ao promotor da infância e da juventude ou ao conselho tutelar o que fazer com o aluno que se recusa dar atenção à aula ou participar das atividades propostas, que não faz tarefas, que desrespeita o professor.
Talvez haja alguma  razão para isso, isto é, para que o professor não faça essas perguntas. Fiz algumas suposições:
1.O professor teme ter uma resposta que não quer aplicar. Ele não quer mais compromisso com a educação.  Está desmotivado. Essa é uma hipótese.
2.A outra hipótese é que ele já sabe a resposta que vai receber. “Tem que dialogar como o aluno”. Como ele já gastou toda a sua habilidade dialógica e não conseguiu nada então nem quer tentar ouvir isso outra vez.
3.Ele não sabe ser professor, isto é, não sabe separar o pessoal do profissional, portanto, não saberá fazer nada do que for recomendado.
Com relação à primeira hipótese  é um fato já comprovado pelas pesquisas que aumenta a cada ano o número de professores com a Síndrome de Burnout. Estão sem energia ou sempre estiveram sem energia?  Quem está desmotivado já não estaria quando ingressou? A pergunta parece intempestiva, mas merece uma pesquisa.
Com relação à segunda hipótese devo concordar que o diálogo é a melhor saída para os problemas. Uma única ressalva: ele é a melhor solução para os problemas que têm solução. Quando se trata de relações humanas há  situações em que uma das partes envolvidas não está interessada em resolver o problema. A situação constrangedora para o outro satisfaz o seu ego ou representa uma vingança contra alguma situação constrangedora que sofreu em algum outro lugar.
Se ela está se vingando como irá se abrir para o diálogo com quem não vai resolver o seu problema?
O diálogo com uma pessoa assim requer um preparo e um tempo especial que o professor não tem.  Há casos em que o tratamento é longo e requer profissional especializado. Mesmo assim existem as reincidências múltiplas que atestam a complexidade do problema.
Para dialogar com alguém que se insubordina é preciso olhar nos olhos
Nossas crianças e jovens já perceberam que  com a curvatura da vara o adulto está fragilizado perante ele. Ele não teme mais o olhar nos olhos e se o professor fizer isso será denunciado pelo aluno como estando querendo intimidá-lo, sendo ameaçador, etc.
A defesa do mais fraco é legítima, mas não pode ser indiscriminada. É preciso defendê-lo de abusos, mas não de ser educado.
A receita de um diálogo para quem já está pedindo socorro não ajuda muito. É preciso algo mais, é preciso mediação,  intervenção. É por essa razão que defendo que o aumento de verbas para a educação deve vir acompanhado de um projeto para atender essas emergências que não são poucas. Os anos de tratamento inadequado ao problema agravou a situação. Os problemas vividos nas favelas do Rio de Janeiro e a união de forças das diversas esferas  do poder público, para  retomar o controle,   são um exemplo do que estou dizendo. O contexto escolar  não difere muito do que foi vivido lá, exceto, talvez, na intensidade por causa da pouca idade dos envolvidos e do preparo do professor.
 Por último preciso explicar o que quero dizer com não saber ser professor. O professor é um profissional que normalmente não tem no seu curso uma disciplina chamada ética profissional. Há pouca, quase nenhuma, discussão sobre a solução de conflitos em sala de aula, sobre o que é ser profissional. É preciso melhorar o programa das licenciaturas. O professor das licenciaturas deve ser alguém que viveu a sala de aula na educação básica e teve sucesso.
Melhorar a educação requer tudo isso.
Antonio Sales   profesales@hotmail.com
Nova Andradina,  22 de setembro de 2012.

domingo, 23 de setembro de 2012

MELHORAR A EDUCAÇÃO



Muito se fala em melhorar a educação brasileira. Há quem compare com a China e outros  países denominados “tigres asiáticos”, mas esquecem de que a cultura é outra ( assunto para outro texto). Não se compara a educação em culturas diferentes.  Um problema aqui no Brasil é que parece haver um acordo tácito (contrato didático, segundo Brousseau) entre alguns professores e um considerável número de alunos. As regras desse contrato seriam: você não precisa me ensinar desde que não me reprove. Isto é, não precisa fazer nada mas, por favor, não se denuncie me reprovando para não me obrigar a dizer o que aconteceu.
Outros falam em investimentos na educação como solução para o problema. Investimentos financeiros, evidentemente. Chegam a falar em 10% do PIB. Acontece que países com educação de qualidade não investem isso tudo o que significa dizer que  a péssima qualidade da nossa educação não está relacionada somente à falta de investimentos financeiros.  Talvez tenham sua origem nessa falta, mas não está mais condicionada a ela.
Concordo com quem disser que o professor deve ser mais bem remunerado, mas não creio que isso contribua muito para a melhoria da qualidade na educação. Melhorará a vida econômica do professor  e isso é importante, mas não melhorará, necessariamente  a educação.
Estou certo de que outros programas devem acompanhar um maior investimento financeiro na educação, mas eu não saberia dizer quais. Quem está perdido não sabe indicar o caminho para ninguém. Eu estou perdido nesse labirinto chamado sistema educacional brasileiro. Sei relacionar tudo que não funciona, mas não sei propor uma praxeologia*.  Eu mesmo tenho tantos insucessos quantos sucessos na minha prática docente, mesmo trabalhando com professores e futuros professores. De vez em quando tenho ilhas de sucesso. De vez em quando tenho alunos que me surpreendem e tenho professores que dizem ter mudado a sua postura a partir das minhas orientações.  Observe a ênfase na frase “de vez em quando”.
Quando professor da educação básica também tive  apenas ilhas de sucesso.  De vez em quando encontro um ex-aluno que me cumprimenta e diz que deve o seu sucesso profissional  à influência que exerci na vida dele. Mesmo assim, muitas vezes, tenho dúvidas se ele vem me agradecer ou apenas  anunciar o seu sucesso.
Não tenho nada contra alguém vir anunciar o seu sucesso.  Aliás, o fato de vir anunciar exatamente a mim indica especial consideração para com a minha pessoa. Sinto-me orgulhoso. Agradeço sinceramente a todos que já fizeram isso. Minha dúvida é: contribuí para o seu sucesso ou apenas não atrapalhei? Ele veio dizer-me: obrigado por ajudar-me ou obrigado por não atrapalhar?
Lembro-me de apenas três casos que não deixaram dúvidas quanto à minha contribuição. Um deles foi meu aluno por um ano e aguardou, segundo ele, uns 15 anos para me reencontrar e agradecer. Havia, segundo ele ainda, avisado a esposa que tinha essa necessidade de se encontrar comigo. O outro foi meu aluno por um dia e voltou 15 dias depois (nas palavras dele) somente para me agradecer. O terceiro nem foi meu aluno. Minha contribuição foi indireta e eu o conheci no dia em que me procurou para agradecer. Ajudei-o com um conselho dado à sua mãe que já não sabia mais o que fazer com os insucessos escolares do filho. Como se pode ver,  de vez em quando eu acerto (ou apenas não erro totalmente?).
Exatamente por não ser um professor de muito sucesso é que me atrevo a fazer críticas ao nosso trabalho e aos discursos que ouço por aí. Se fosse totalmente bem sucedido seria deselegante criticar os colegas e se fosse  sempre malsucedido já teria desistido da profissão, logo, não estaria perdendo tempo com esse assunto.
Deixem-me agora falar o que penso sobre a questão da necessidade de altos investimentos para melhorar a educação, sem um plano previamente elaborado para um bom aproveitamento desses recursos.
Mais verbas não melhoram a educação porque não motiva o aluno a estudar, não o obriga a cumprir  as tarefas escolares, não o torna mais respeitoso para com o professor  e não ensina ao professor sobre o que falar aos pais nas reuniões de pais e mestres. Essas reuniões  são uma chatice.
 As reuniões com os pais são uma chatice porque os professores se limitam a parabenizar os filhos de uns e a denunciar os filhos dos outros. Dizem para o pai tudo o que o filho dele não faz, mas não acrescentam nenhuma sugestão, não propõem nenhuma parceria. Dizem tudo o que o pai já sabe, mas não dizem o que ele precisa saber.
Eu imagino o pai ouvindo as reclamações do professor e pensando: tudo isso eu já sei. Só não sei o que fazer. Alguma sugestão?
 Acompanhei um grupo de professores através de um projeto de extensão  e no final do ano pedi uma avaliação oral. Um professor disse: “este ano consegui fazer parcerias com os pais de alguns alunos-problema. Ajudou bastante”. Uma professora disse: “estou mais livre, estou conseguindo administrar os conflitos da sala de aula com mais liberdade”. Ilhas de sucesso. Outros professores sequer entenderam ou não quiseram entender a minha proposta. Tive sucesso ou insucesso?
O professor reclama o  tempo todo mas não apresenta propostas novas, não fala de seus novos planos, das suas novas leituras, das novas teorias que conhece dos objetivos da sua disciplina e de como ela pode contribuir para melhorar a qualidade de vida do aluno. É como um “canoeiro” que não sabe remar. Reclama de ser levado pela correnteza, mas não aciona o remo para diminuir  a velocidade ou mudar o rumo.
Lembremos que o dinheiro compra o alimento, mas não compra  a fome; traz conforto mas não traz satisfação profissional; compra o livro mas não compra o prazer de ler e  a inteligência.
Quando o corpo docente vai para alguma luta promovida pelo sindicato sempre  reclama de várias coisas, mas depois tudo se reduz ao salário. Só pensam nisso? Ninguém pergunta ao promotor da infância e da juventude ou ao conselho tutelar o que fazer com o aluno que se recusa participar da aula, desenvolver as atividades propostas, que não faz tarefas, que desrespeita o professor. Ninguém pergunta o que fazer com os pais que não comparecem às reuniões e não justificam. Pode cortar vale renda ou bolsa-família?
O que fazer com o professor que passa anos a fio sem apresentar uma nova proposta de trabalho?   Continua ganhando o mesmo salário que os outros?
Ninguém pergunta como o gestor pode ajudar. Quais as propostas que ele tem para diminuir esse fosso sem sobrecarregar ainda mais o professor? É fácil levar uma carga pesada quando se tem alguém para transportá-la e sobre o qual se joga toda responsabilidade e toda culpa se o fardo se romper.
Por outro lado, se o professor não tem contraproposta, como dialogar?
O que fazer com os pais que já perderam o controle sobre os filhos? Para onde encaminhar uma criança que já adoeceu socialmente e está infectando as outras?
Não é um labirinto? Por onde começar a melhoria da educação? Basta dinheiro ou precisa de algum projeto especial. Por que não uma proposta de educação especial para o aluno que já contraiu a doença socioinfectocontagiosa**? Por que não uma forma de “obrigar” os pais virem à escola participar da educação dos filhos? Por que não uma cartilha para ensinar o que  professor deve falar aos pais nessas reuniões?

 Antonio Sales    
profesales@hotmail.com

Nova Andradina, 21 de setembro de 2012

(*) Uma prática racional, eficaz.
(**) Drogadição, desinteresse pelo estudo, agressividade.

sábado, 18 de agosto de 2012

O TOSCO



“Tosco”(*) é o título de um livro escrito pelo “Filósofo, Teólogo e Psicólogo” Gilberto Mattje. Trata-se de uma narrativa agradável cujo personagem central é um menino, produto de uma gestação moralmente tumultuada, sendo o pai um bêbado e a mãe uma “biscate”. Finalmente ele recebe o apelido de Tosco, o “mal-acabado”.
A estória muito interessante descreve a trajetória  turbulenta do garoto pelos meandros das drogas e da violência e que tem um final feliz com a amizade do professor Jeferson, de Educação Física, que resolve investir no rapaz.
A mensagem direta é clara. Ele se tornou rebelde por culpa da família desestruturada e permaneceu longo tempo assim porque a escola não soube lidar com o problema.
A mensagem indireta também não deixa margem para dúvidas. Quando o professor resolver fazer algo pelos seus alunos, investir neles, a droga cede espaço e a paz reina soberana. Aliás, o problema é a escola e a família, os professores e os pais. Ninguém mais precisa fazer nada, nem mesmo o adicto e violento, para que o problema seja resolvido. O Estado está isento. O aparato judiciário, enfim, poderá descansar em paz porque a escola  dará conta do problema. Basta o amor, o afeto ou amizade do professor e da família.
Não tenho a intenção de negar essa possibilidade de cura pelo afeto especialmente porque suponho que o autor, com o preparo intelectual que tem, deve ter embasamento científico para o que escreve. Li e recomendo a leitura. Sugiro que se experimente a tática do professor Jeferson e de outros exemplos do livro. Que ela seja posta em prática por todos integrantes da escola. Nunca se perde por apostar no ser humano ainda que não resulte no esperado.
Quero, no entanto, levantar  algumas questões que o autor não respondeu e talvez não tenha mesmo sido essa a sua intenção. Sua intenção, ao que parece, era mostrar uma das múltiplas faces da violência  e da cura. Foi feliz no que se propôs.
Minha intenção é mostrar outras faces do mesmo problema. O caminho para as drogas e para rebeldia não é único. A motivação para permanecer  doente ou para procurar cura também provém de  múltiplas fontes. Embora eu acredite no poder do amor, creia fortemente na força propulsora da amizade e no valor da aposta no ser humano, não acredito na existência da deusa Panacéia. Não considero prudente isentar a família e a escola de responsabilidades, mas também não considero justo colocar nas mãos deles a solução para todos os problemas do gênero.
Não sou psicólogo e não tenho experiência direta no trato com pessoas adictas. Sou voluntário, faz alguns anos,  do “Grupo de Apoio Amor Exigente” que trabalha com  a família dos adictos procurando aliviar o fardo que pesa sobre os ombros delas.
Muitas vezes coube-me a tarefa de fazer  o “primeiro acolhimento” e dar as boas vindas ao casal que vem à reunião do grupo em busca de apoio. Tenho recebido pais que chegam carregados de culpa porque foram “bons” pais. Procuraram tratar o filho com carinho, protegê-lo, e agora se perguntam: onde erramos? Famílias bem estruturadas deram, na concepção deles, uma atenção extremada, confiaram demais no filho, e agora se sentem traídos.
Às vezes o adicto  é filho único. Outras vezes é o querido caçula. Há casos em que é o único menino num grupo de meninas ou vice-versa ou tem certa fragilidade física, etc. O certo é que o trataram muito bem e o “estragaram”.
Conforme se pode ver o meu pressuposto de  que o caminho para as drogas não é único se confirma na prática. Conhecemos pessoalmente casos de jovens gestados em lares marcados pelo vício do álcool e pelas desavenças que, no entanto,  detestam o vício, detestam a vida que levaram e querem constituir uma família diferente da que viveram. Felizmente, os motivos para não usar drogas ou para sair delas também são múltiplos. O curioso é que, muitas vezes,  os motivos alegados por uns  para evitar são os mesmos alegados por outros para usar.  
Conheço pessoalmente, pela minha vivência no Grupo de Apoio, muitos pais que salvaram o filho adicto com medidas  duras, com o corte de privilégios. Cercado pela união da família e vendo a posição firme do chefe da casa ele pediu tratamento e se recuperou. Fato interessante: uma vez tratado retoma o diálogo com os pais  e confessa que era um chantagista, um aproveitador da bondade deles.
Onde quero chegar?
Quero afirmar que garantir que o afeto ou a amizade é suficiente, por si só, para recuperar um adicto e mudar a postura de um violento é simplismo. Outras medidas precisam ser tomadas e para quem faz um trabalho coletivo, como é caso dos professores, é praticamente impossível diagnosticar a necessidade de cada um: se é de afeto ou de pulso firme. Soma–se a isso o que já foi mencionado em texto anterior  que a sociedade não permite ao professor tratar o aluno com firmeza, colocá-lo no lugar de aluno.
Sabendo que o professor tem essa limitação, essa ausência de autonomia, os alunos agressivos zombam, chantageiam e abusam.
Interessante destacar que existem autores (KANITZ, 2009; NUÑES, 2005; HERE 2009) que não veem no  afeto a força suficiente para curar esse mal. Os casos devem ser tratados individualmente.
Campo Grande, 21 de julho de 2012.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com
Referências
HERE, Robert. Psicopatas no divã. Veja. Edição 2100, Ano 42, Número 13, 1º/4/2009 (Páginas amarelas). (O autor é psicólogo canadense especialista em psicopatias)
KANITZ. Stephen. Violência Simétrica. Disponível em: <  http://blog.kanitz.com.br/2009/06/viol%C3%AAncia-assim%C3%A9trica-ii.html  acesso em 187/06/2009
NUÑES, Miguel Ángel. Amores que matam. Tatuí (SP):Casa Publicadora Brasileira, 2005.
(*) MATTJE, Gilberto Dari. Tosco. Campo Grande, MS: Gráfica Alvorada, 2009.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A VIOLÊNCIA NA ESCOLA



Estava na sala de fisioterapia. Enquanto o aparelho produzia uns “choques” no meu joelho eu ouvia o desabafo de uma servidora pública que trabalhava na escola. Ela conversava alto com a fisioterapeuta, procurando chamar a atenção de alguém, esperando que alguém se interessasse pelo que tinha a dizer. Momentos depois ela sentou-se perto de mim para também levar uns “choques” no pé. Como a fisioterapeuta se afastou e eu estava em silêncio ela silenciou também. Rompi o silêncio e perguntei se era professora. Disse-me que não. Exercia a função de administrativa, mas estava indignada com o tratamento que certo aluno do 6º ano dava os professores. Falou das ameaças que ele fazia aos professores, dos desacatos, dos palavrões e dos xingamentos que proferia mesmo quando tratado com educação.
“Finalmente”, disse ela com certo alivio na voz, “ele foi transferido para outra escola. Depois de muitas ocorrências conseguiram a transferência dele”.
Voltei para o meu silêncio. Nada tinha a lhe dizer.
Se não tinha o que dizer, tinha muito para pensar e escrever.
Estamos brincando de educar, pensei. Não se educa sendo permissivo e nem transferindo responsabilidades. É lamentável que o problema de uma escola seja resolvido com a transferência do mesmo para outra escola.
No entanto, esse é, infelizmente,  o caminho encontrado pelos educadores para se livrar de um problema que denomino de doença social infectocontagiosa. Por que se recorre a esse expediente  covarde de transferir o problema para outro? Por quê?
Porque não há aparato político, técnico, científico e judiciário para ajudá-los. Às vezes nem mesmo há vontade de resolver o problema porque encará-lo significa admiti-lo.
Para os administradores públicos já está claro que no caso de uma doença física além do atendimento primário em uma  Unidade de Saúde de Família ou atendimento de urgência em um  Posto de Pronto Atendimento é necessário um hospital equipado com tecnologia moderna, ambulância para traslado equipada com paramédicos treinados  e pessoal cientificamente preparado para atender os casos  graves que extrapolam o potencial de um atendimento  primário.
No caso dessa doença social caracterizada pelo desrespeito  de algumas crianças e vários adolescentes para com os professores e outros adultos, aparentemente,  nenhum  investimento é feito em treinar pessoas, equipar “hospitais” e preparar o aparato judiciário para o enfrentamento do problema. Essas crianças e adolescentes estão doentes e requerem tratamento especializado.
À  escola cabe dar o atendimento primário, fazer o trabalho preventivo, investir  numa “boa” relação com os pais, orientando-os, produzindo discussões e fornecendo sugestões não simplistas. Professores e coordenadores precisam se preparar para o diálogo com os pais.
Eles não podem ir além desse passo. Não lhes é permitido pela sociedade exigir que os alunos tenham certos comportamentos. Serão acusados de expor o aluno ao ridículo, de abuso de autoridade ou extrapolar o seu papel. Não tendo o que fazer silenciam, sofrem e, quando podem, transferem o problema para outra escola.
Ora, aqui está o problema. Por que não transferir  para uma instituição educativa com agentes preparados para atendimento especializado? Porque não há essa instituição. Mas, e por que não há essa instituição? Porque há uma hipocrisia na administração pública que finge não estar vendo o problema, uma hipocrisia no judiciário que finge cumprir o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) “respeitando” o não respeitável. Por que não respeitável?
Porque se não é respeitável o direito de um motociclista pilotar sem capacete, ou um motorista dirigir sem cinto de segurança, porque tal comportamento expõe a sua vida ao perigo, como podemos achar que é respeitável o direito de uma criança ou adolescente permanecer enfermo socialmente? É respeitável o seu direito de ser infrator? Isso não expõe a sua vida, e a de outros, aoperigo?
No caso de uma doença física o médico tem a liberdade para prescrever o remédio e esperar que a equipe técnica cumpra o que está prescrito na receita. Isso é considerado importante para o bem do paciente e da sociedade que alimenta a expectativa de recebê-lo de volta  recuperado do mal que o acometeu e certa de que ele teve o atendimento que merecia. Por que, no caso de doença social infectocontagiosa, o aparato judiciário não pode prescrever medidas sócioeducativas que funcionem?
Fiz essa pergunta porque tenho acompanhado casos de medidas socioeducativas em que a instituição cidadã que se dispõe a colaborar com o judiciário não recebe nenhum apoio para fazer o infrator cumprir o que foi determinado. Como resultado dessa ausência de orientação e apoio ela prefere devolver o sujeito, transferir o problema, e assim o faz.
Com essas transferências o problema se agrava tornando-se crônico e, em muitos casos, incurável. Estamos fazendo um cultivo de “estafilococos” resistentes a tratamento porque as medidas tomadas não são efetivas. Não se faz um estudo sobre esses casos ou não se leva em conta os estudos já realizados. Parece que estamos insistindo em respeitar quem não quer ser respeitado.
Antes desse estágio de atuação do judiciário, as “bactérias” mutantes criaram resistência suficiente  na escola e infectaram outros. A escola demora encaminhar por não acreditar que o judiciário tenha proposta melhor do que a sua. Muitos casos encaminhados voltam com a determinação da promotoria de que o lugar  do aluno é na escola e é lá que ele deve permanecer sem levar em conta que foi lá que ele adoeceu e transmite  a “doença”  aos outros. O stress provocado por ele adoece os profissionais, sem levar em conta os casos de morte que já foram registrados. O stress provocado causa certo prazer no infrator (MATTJE, 2009; HERE, 2009; VEJA, 2007) que se torna mais agressivo, ousado, e, ao mesmo tempo, lhe produz mais irritação porque os estressados se tornam impacientes com ele. Nesse contexto os demais alunos ficam tensos, instáveis (uns temerosos e outros ousados), os pais ficam temerosos pelos seus filhos e ocorre a incoerência de se devolver um doente ao lugar que o enfermou. Outros serão enfermados por ele e quando encaminhados serão também devolvidos para enfermar outros.
Onde fica a direito que a criança e o adolescente tem de aprender a respeitar? E o direito de exercer a cidadania? Os doentes não são dignos desse direito? Educar não é proteger? É possível educar sem exigir o cumprimento de regras socialmente estabelecidas?
É possível romper com esse círculo vicioso? Creio que sim. Aposto que se os Sindicatos de Professores encampassem essa luta promovendo debates, denúncias, passeatas,  audiências públicas e outras medidas que os líderes politizados são capazes de fazer, alguma mudança começaria ocorrer.
Estou esperando para ver acontecer essa mobilização. É hora da luta pelo respeito, pela seriedade e pela paz. Isso não seria lutar por uma educação de qualidade?
Campo Grande 20 de junho de 2012.
Antonio Sales   profesales@hotmail.com
Referências
HERE, Robert. Psicopatas no divã. Veja. Edição 2100, Ano 42, Número 13, 1º/4/2009 (Páginas amarelas). (O autor é psicólogo canadense especialista em psicopatias)
MATTJE, Gilberto Dari. Tosco. Campo Grande, MS: Gráfica Alvorada, 2009.
VEJA. Revista Veja, Edição 1990, Ano 40 nº 1 de 10/01/2007, p. 49. São Paulo: Editora Abril, 2007.

domingo, 15 de julho de 2012

O PROFESSOR É PREPARADO PARA SER PROFESSOR?



“Ninguém ensina o professor a professorar” disse o professor Ismael.
Já escrevi sobre isso. Já me reportei aos conflitos que enfrentei quando assumi a sala de aula. Já  tratei das informações básicas que me faltaram porque os professores do curso de licenciatura não me ensinaram a ser professor.
Eles não ensinaram porque não sabiam, porque também não foram ensinados. Alguém nos ensina a ser professor?
Como disse uma palestrante, certa vez em que a universidade onde trabalho resolveu realizar um encontro de professores, em abril de 2012. A convidada disse: “na universidade ninguém nos ensina a ser professor; amanhecemos dentistas e anoitecemos professores”. Não me lembro qual a formação dela. Não anotei porque no dia não me ocorreu a ideia  de escrever sobre isso, mas a frase ficou “martelando” na minha cabeça. É assim que acontece na maioria das vezes. Amanhece-se bacharel, presta-se um concurso e à tarde está aprovado para ser professor em um curso de licenciatura onde se formam os professores da educação básica.
Mas o que é ensinar a ser professor? Suponho que algum  leitor tenha pensando nas aulas de didática. Imagino que outros tenham pensado nos conteúdos específicos da ciência básica do curso ou nas disciplinas pedagógicas. Talvez alguém pense nas aulas de prática de ensino  mas, não é de nada disso que estou falando. Estou falando de uma coisa que um colega disse certa vez e eu não entendi no momento, mas que depois que ouvi a palestrante citada fez sentido.
Esse colega, professor de Matemática da educação básica, atuou um certo  tempo como professor substitudo na universidade  e um dia o ouvi dizendo: “o porfessor do curso de licenciatura não ensina professorar”.
O que é professorar? É agir como professor.
Recorro  a um exemplo  para ilustrar. Tenho um amigo grande conhecedor da Lingua Portuguesa  e que atuou como professor dessa disciplina na educação básica por vários anos. Muito sério no que fazia sempre questionava os resultados que obtinha. Cansado, resolveu mudar de área e migrou para  a área  jurídica. Com um mestrado em Lingua Portuguesa e os conhecimentos jurídicos tornou-se professor de Direito em uma universidade em que eu também trabalhava. Quando nos encontrávamos no pátio dessa grande universidade conversávamos sobre os problemas educacionais que ele bem conhecia.
 Certo dia conversávamos sobre os dilemas de ser professor  quando me contou como trabalhava  como os acadêmicos. Segundo ele os acadêmicos de Direito, no início do curso, pensam que já são advogados  e que são capazes de  ganhar todas as causas. Em virtude disso,  protestam facilmente contra tudo o que o professor propõe.  A forma que ele encontrou para ensiá-los a ter limites e mostrar que nada é tão simples é desafiando-os ( e até animando-os) a fazerem as observações por escrito, encaminhá-las ao coordenador do curso,  e se prepararem  para a réplica. Avisa-os que haverá resposta fundamentada para a reclamanção que fizerem. Explica-lhes que a cada direito que reclamarem corresponde a um direito a ser reclamado pelo outro.  
Pensei comigo: ele está ensinando a ser advogado. Como professor de advogados está ensinado o que é advogar. Está deixando claro que um advogado tem que saber que todo processo dele poderá ser questionado por outro advogado tão bem ou até melhor preparado do que ele. Isso significa que ele pode ganhar a causa, mas que também pode perder. Precisa saber que qualquer processo que interpuser  deve ser bem fundamentado. Não pode desprezar o potencial do outro. Não pode se iludir pensando que é fácil ter sucesso, que tudo corre  a seu favor, que o mundo gravita ao seu redor. Não pode se considerar superior, incontestável, mas também não pode se deixar abater diante da possibilidade perder uma causa. Fracasso e sucesso caminham lado a lado na vida desse profissional.
Disse –me que o professor não pode  coibir o acadêmico de protestar, mas também não pode iludi-lo com a ideia de que a batalha judicial é fácil de ser ganha. Não pode ignorar que ele vai ser advogado e que terá que enfrentar adversidades. Tão importante quanto saber Direito e conhecer as leis é saber ser advogado. É preciso saber advogar, saber argumentar e fundamentar os argumentos.
Na perspectiva dele tão importante quanto conhecer o Direito e as leis é conhecer os meandros do judiciário, a ética própria da profissão, o respeito ao cliente e o respeito ao outro advogado.
Fiquei pensando  e tentando juntar esses fragmentos de conversas. “Ensinar a professorar”, “amanhecer [bacharel] e anoitecer professor”, “ tão importante quanto conhecer [a ciência é saber relacioná-la com a profissão]”.
Na licenciatura dá-se aulas para o licenciando como se fosse para  formar um bacharel. Na Matemática ensinam-se regras de derivações, de integração, demonstrações, mas não se ensina “professorar”, se relacionar com os alunos, adequar a metodologia às necessidades dos alunos, questionar a proposta pedagógica do curso e do professor. Se ele aprendesse a questionar a proposta do professor não se sentiria ofendido quando fosse questionado na escola.
Não se ensina a ser profissional porque não se discute ética profissional, não se ensina a respeitar os direitos dos alunos (em qualquer nível), não se discute a adequação do projeto pedagógico do curso, a didática  do professor, o respeito nos  pronunciamentos, a necessidade de fundamentação para o que se fala. Professor se contradiz no discurso, alguns agridem com palavras e gestos, outros têm comportamento semelhante ao comportamento que condenam nos alunos e, tudo isso,  sem se preocupar  se é ético ou não proceder dessa forma.
Como o professor, enquanto acadêmico, nunca foi valorizado pelos profesores ele não sabe valorizar o aluno. Por nunca  ter aprendido a questionar ele não aceita questionamentos dos alunos. Por nunca ter sido respeitado em sua reivindicações ele tem dificuldade em repeitar.
É preciso ensinar o professor a “professorar”.

Campo Grande, 15 de julho de 2012.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com